15 de Agosto
Que seria o dia em que (antigamente), saloio que se prezasse tinha que ir
molhar os pés ao mar e fazer o belo piquenique de farnel e garrafão.
Por mim, confesso a minha falha, nunca me lembro de cumprir esse ritual.
Não sei se seria pela dificuldade de transporte se por outro motivo, os
meus pais não tinham essa tradição, pelo menos depois de eu me lembrar.
O que me recordo nesta data é de ir ao Jardim Zoológico, festejar os anos
do meu pai (faria ontem 108 anos), aí sim, era o tal piquenique.
Na época quarto tios meus residiam em Lisboa (dois irmãos do meu pai e duas
irmãs da minha mãe) e durante vários anos este dia era aproveitado para reunir
essa família, uma verdadeira festa.
O coelho com arroz que a minha mãe cozinhava de madrugada, os pastéis de
bacalhau que os meus tios levavam, os bolos que as tias faziam, o melão doce
como mel.
Até sinto a água a crescer na boca ao recordar.
Ficava aqui até amanhã de manhã para contar as peripécias que aconteciam
nestes convívios.
Outro marco deste dia, que guardo na memória é o facto de ser neste dia que
antigamente se fazia o pagamento das rendas dos campos de cultivo.
Era neste dia que os rendeiros pagavam em géneros (cereais) o valor anual
aos donos dos campos.
O meu pai como era caseiro numa quinta, não era rendeiro de campo, quando
saímos de lá, o meu pai arrendou o Açude, mas nessa altura já a renda era paga
em dinheiro.
Nessa altura (por volta de 1962) o meu pai trabalhava para um dos senhores
da terra, a maioria dos amigos da minha idade sabem, que a nossa terra era
pertença de meia dúzia de famílias, eram donos dos campos, das casas, do
trabalho.
A época era assim, nem eles tinham culpa de nascer "calçados" nem
os outros tinham culpa de nascer "descalços".
Era normal que em todas as classes existissem pessoas com maneiras
diferentes de agir e de pensar, havia uns mais conscientes outros mais
indiferentes aos problemas dos seus semelhantes.
Pois esse senhor nesse distante quinze de Agosto viu chegar junto dele um
rendeiro que deveria trazer dois talegos de trigo e que normalmente por
residir fora da aldeia, viria acompanhado do seu burro, em vez disso vinha
sozinho e trazia um talego às costas e à pergunta de tal acontecer, ele
respondeu que a seara fora muito má, que não ganhara para a despesa e que tinha
vendido o burro, mas que ia a casa e voltaria com o outro talego.
(Para quem não se lembra, nesse dia para os senhores, o dia era de festa e
convívio com os rendeiros, uma mesa com pão, queijo, chouriço, parrameiros,
enfim uma merenda bem-apresentada para oferecer aos rendeiros com quem gostavam
de ficar a conversar até à noite cair.)
Pois esse senhor, marcou toda a diferença entre o ser um homem ou um HOMEM.
Chamou outro rendeiro que tinha uma carroça e pediu-lhe que no regresso a
casa passasse pela casa do Joaquim e lhe levasse o seu talego de trigo e
mais seis que, entretanto, mandou pôr em cima da carroça, dizendo ao Joaquim
que já estava sem palavras, que fosse vender o trigo, desse de comer aos filhos
(seis) e que fosse comprar outro burro.
São estas memórias que hoje agradeço à vida, foram elas que fizeram de mim
o que sou.
Não sou perfeita nem nunca pretendi ser, mas com todos os meus defeitos,
tento sempre respeitar quem me respeita, e seguir os bons exemplos que
encontrei na vida.
Não sirvo de exemplo, apenas tento seguir os ensinamentos que me foram
incutidos pelos meus Pais, e pelos mais velhos.
Uma foto de um passeio dos Saloios, Povoenses, à praia do Vimeiro no dia 15
de Agosto, de 1959.
Julgo não estar a errar, é a data que está na foto, que não era minha,
foi-me oferecida por um primo, porque se encontram lá muitas pessoas da minha
família.


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